RESPEITO À IMAGEM

Jornal do Brasil, 28/07/2006 - Coluna Coisa da Política, por Mauro Santayana

Entulhos autoritários

O veto do Presidente Lula ao projeto corporativista da Federação Nacional de Jornalistas, que tornava ainda mais iníqua a lei da Junta Militar contra a liberdade de expressão, deve ser visto também como o início do retorno ao bom senso na política de emprego e trabalho em nosso país. O projeto, como se sabe, foi apresentado pelo "destacado" parlamentar Pastor Amarildo, do PSC de Tocantins, que se encontra envolvido até o pescoço no charco dos sanguessugas. Faltou à Câmara e ao Senado o cuidado de examinar a proposta, do ponto de vista constitucional (convém perguntar para quê existe a Comissão de Constituição e Justiça nas duas casas). Não só a exigência de diploma para o exercício do jornalismo contraria o capítulo de Direitos e Garantias da Carta em vigor, como também viola os acordos internacionais de que é signatário o Brasil, conforme deixou bem claro o ex-chanceler Celso Lafer, em artigo recente, publicado pela Folha de S. Paulo. Os acordos internacionais integram o elenco de leis nacionais, a menos que sejam formalmente rejeitados. Sendo assim, para cumprir o que determina a Organização dos Estados Americanos, o que o governo deve fazer é revogar, pura e simplesmente, a lei de 1969, um dos últimos entulhos autoritários do regime militar.

A minha posição sobre o assunto é conhecida há muitos anos. Nunca neguei que também defendo uma posição de classe. A liberdade de imprensa - e não "da" imprensa - é a liberdade de expressão impressa, ou seja, a de qualquer pessoa escrever e publicar o que quiser, sem licença do poder público. Ela não pode ser restrita aos que têm acesso à universidade, por melhor que seja a universidade. Certa vez - e disso se lembrará o presidente Lula - disse-lhe, e aos que o acompanhavam, em jantar em Roma (entre eles, o excepcional jornalista e melhor figura humana que é Ricardo Kotshko), que ele, o torneiro mecânico de Garanhuns, poderia vir a ser presidente da República - o que veio a ocorrer bem depois -, mas estava impedido de trabalhar como simples repórter do Diário do Grande ABC. É certo que para dirigir um automóvel, que nunca consegui aprender, é preciso freqüentar uma escola especializada e submeter-se a teste prático. É inadmissível o trabalho do cirurgião que não conheça anatomia e fisiologia, e não seja hábil com o bisturi. Mas a única técnica que convém a um jornalista dominar é a da redação, e o único curso recomendável é o elementar, onde aprenda bem as regras corriqueiras da língua pátria. E, ao que parece, ortografia e gramática não fazem parte dos currículos universitários.

Não me canso de repetir que a essência de nosso ofício não é técnica, mas, sim, ética. Certa vez, na Comissão de Estudos Constitucionais, como se lembrará o professor Cândido Mendes, tive difícil diálogo com um dos mais respeitáveis brasileiros do século passado, o venerável Barbosa Lima Sobrinho, que defendia a exigência do diploma. Eu lhe disse, então, que a nossa atividade pode ser a mais honrada de todas, ou a mais abjeta delas, dependendo de quem a exerça. O diploma não confere honra a ninguém, nem impede que se avilte.

A proliferação de cursos universitários, para ofícios singelos, como os de bibliotecários e secretárias, faz parte do grande mercado de ilusão dos tempos modernos, e serve ao fundamentalismo mercantil. Milhares e milhares de jovens sacrificam-se e sacrificam seus pais na busca de um diploma que lhes venha conferir modesta estabilidade, e acabam caindo na fossa do desemprego e do desespero.

É hora de voltar ao senso comum.


Email enviado pela Fenassec:

To: [email protected]
Sent: Monday, August 14, 2006 1:07 AM
Subject: Ref. Matéria Jornal do Brasil - 28/7/06

Prezado Senhor Mauro Santayana,


Como presidente da Federação Nacional de Secretárias e Secretários - FENASSEC está sob minha responsabilidade informar às pessoas que não têm conhecimento a importância da profissão de secretariado, bem como a necessidade de formação específica para o desempenho das atividades profissionais.

Refiro-me ao seu artigo publicado no Jornal do Brasil, sexta-feira, 28/07/2006, Coluna Coisa da Política, no que diz respeito à profissão de Secretariado, ao comentar que "A proliferação de cursos universitários, para ofícios singelos, como os de bibliotecários e secretárias, faz parte do grande mercado de ilusão dos tempos modernos, e serve ao fundamentalismo mercantil. Milhares e milhares de jovens sacrificam-se e sacrificam seus pais na busca de um diploma que lhes venha conferir modesta estabilidade, e acabam caindo na fossa do desemprego e do desespero. É hora de voltar ao senso comum."


Para seu conhecimento, o profissional de secretariado atua em todos os segmentos de mercado junto aos centros decisórios das organizações, tanto públicas quanto privadas, de pequeno, médio e grande porte. Esteja esse profissional atuando no mais alto como no mais baixo nível hierárquico, sempre estará assessorando profissionais em nível de comando.

A formação do Curso de Secretariado garante ao egresso competências para intermediar as relações entre o ambiente interno e externo à organização, gerenciar e maximizar as informações entre os vários níveis hierárquicos, garantindo otimização e filtro das mesmas, assessorar ações e decisões estratégicas, gerir e executar atividades de apoio logístico focado nas metas da organização.

Como pode constatar, essa profissão necessita de formação acadêmica, que garanta o conhecimento técnico de gestão administrativa e atuação em nível de assessoria, contrário a afirmação em seu artigo. Imperioso ressaltar que, segundo dados do INEP/MEC, Censo 2003, o número de matriculados no Curso de Secretariado é de 16.937, no território nacional. Portanto há demanda sim para essa formação profissional.

Outro dado que merece ser contestado é a afirmação sobre: "...fossa do desemprego e desespero...". Para sua informação, expressivo percentual dos formandos do curso de Secretariado Executivo que estagiam durante a formação tem emprego garantido após a conclusão do Curso. Fato comprovado pelo Setor de Estágios da PUC-SP. Os dados apontam que os alunos de secretariado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo se colocam, desde o primeiro ano, em empresas de médio/grande portes, pertencentes aos mais diversos segmentos, geralmente com remuneração superior àquela percebida por boa parte dos alunos de outras áreas de
conhecimento, como por exemplo, os de Administração, Economia, Ciências
Contábeis etc.

Vale também o registro de que: Segundo pesquisa divulgada pela ONU o secretariado é uma das profissões que mais cresce no mundo; Que no livro “O Trabalho das Nações – Preparando-se para o Capitalismo no Século XXI”, o autor e analista político Robert Reich afirma que a profissão de secretariado está entre o seleto grupo de atividades de “Rotina”, “Interpessoais” e “Analítico-Simbólicas”, as quais permanecerão neste Século XXI; O Jornal Inglês "The Guardian" publicou que "as secretárias brasileiras são as mais bem preparadas" isto devido a formação adquirida; No livro "Economia da Atenção" (Ed. Campus - 2001) os autores enfatizaram a importância do secretário para que os Executivos "tenham foco em suas decisões neste mercado competitivo e muitas alternativas".

Com todo respeito que o senhor merece, enquanto pessoa e profissional, solicito que antes de publicar qualquer afirmação sobre a profissão de secretariado, busque informações concretas e fontes seguras, a exemplo do site da Fenassec: www.fenassec.com.br, para não cometer esse tipo de "gafe".

Coloco-me à disposição para outras informações e/ou esclarecimentos sobre a profissão.

Atenciosamente.

Maria Bernadete Lieuthier
SE-DRT/PE 769
Presidente Fenassec