ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O POVO" DE FORTALEZA/CE, NO DIA 7/01/01

A MULHER-SECRETÁRIA

Casar é bom, ruim é continuar, Eneida! - desferiu Archimedes com marcas de mordida na altura do sovaco, minutos após a 145a. briga do dia.

Aproveitando o ensejo, ela quebra um tamborete em sua cabeçorra. Por fim, a velha ameaça de sair de casa com o short mais imoral, se amostrando pro povo da rua.

- Posso até nem te dar mais tesão, fuleiragem, mas o Eurípedes se baba quando eu passo sambando.

- Com esse jeitão de rapariga, eu sei...

Felizmente, as diatribes de Archimedes e Eneida ocorriam sempre quando as crianças estavam na escola, evitando-se a degradação total do núcleo familiar.

A bem da verdade, o casal querelante vinha tentando apaziguar os ânimos, procurando o empenho caridoso de amigos e até orientação psicológica.

- Tem jeito não, Eneida! É cada um pegar seus panos de bunda e tirar o time...

- Cada um tirar o time vírgula! Se alguém tem que sair de casa aqui é você, seu escroto!

Archimedes, instruído pela amiga de um vizinho, procura a orientação de um advogado, não quer abrir mão do patrimônio que constituiu em dez anos de teto comum - tocava com competência um escritório de representação. Dr. Régis, da vara cível, é enfático:

- O desembargador Eliseu Gomes Torres já dizia, em caso de separação, que "... o acervo patrimonial, antes desfrutado em comum pelo casal e pelos filhos, fica cingido em dois e nessa divisão o resultado nem sempre é aritmético..."

- Quer dizer que não vai sobrar nem o cachorro pra mim?

- O gato e um pote, talvez... Sugiro formas inovadoras de reconciliação.

- Impossível, tentei de tudo.

Olhar distante, mirando um quadro de Miro, o advogado viaja e cochicha no ouvido de Archimedes:

- Procure "Mane Cangulo", pai-de-santo dos mais eficazes, eficientes e efetivos da cidade. Se não tiver resposta pro seu imbróglio, pode tirar o cavalo da chuva e tratar de dividir os bens com a bruaca.

Atendendo incontinenti ao apelo do amigo das leis, Archimedes vai ao pai-de-santo e recebe a orientação devida. De volta à casa, tenta rápido pô-la em prática. O segredo do umbandista, creiam, era nada ortodoxo.

Mas, sabe lá, não surtiria o efeito desejado nesse universo de incertezas e perdas prováveis. Archimedes, frente a frente com Eneida, é todo reconhecimento. Um conciliador:

- A merda em que estamos é fruto de minha incúria matrimonial...

- Quer dizer, raparigagem...

- ... fato que culminou com o desgaste de nosso affair. Tenho pois, o seguinte a propor...

- Quer bem me contratar pra ser tua secretária na firma, né?

- Exatamente!... De acordo?

- Tá é valendo!

E assim foi feito. Logo no primeiro dia de trabalho, mal começara o expediente, a secretária Eneida foi lambida dos pés à cabeça pelo patrão Archimedes, na escrivaninha do escritório. Deixaram para liquidar a questão no sofá da sala de espera no horário do almoço.

À tarde, o insaciável Archimedes pula no colo de Eneida, beija-lhe a boca como nunca fizera na vida e propõe uma viagem de negócios pelo Azerbaijão. Ela, ofegando nos braços dele...

- Sou casada, gatinho! Tenho filhos e a porra dum arremedo de marido...

- Largue aquele corno e vivamos intensamente este amor.

O arrebatado patrão pensa em Machado de Assis, sabe-se lá por quê, e dispara:

- Não conhecer o amor é não conhecer a vida.

Eneida...

- É porque você não conhece o bundão que mora lá em casa! Ta nem aí pra mim, cheio de quenga... Até me bate!

- Um covarde, doido, bosta... Com um animal desse em casa, diabo é quem ia mais raparigar!

Fim de expediente. Eneida, cansada da odisséia prevaricatória com o chefe, está de volta ao lar. Recebe o marido às 21 horas, colorido de batom, sem cueca, na porrada.

- Tem jeito não, Archimedes! Andou putanhando de novo! Pois olhe: quero o divórcio agora! Vou deixar você sem uma banda no bolso.

- Pago pra ver!

Enfim, enquanto marido e mulher brigavam na justiça, patrão e secretária viviam uma caliente e sorrateira paixão.

A Fenassec, juntamente com os Sindicatos Filiados, enviou Nota de Repúdio ao Jornal, que foi publicada no dia 10/04/01:

"A Federação Nacional das Secretárias - Fenassec, Entidade Sindical de grau superior, representante dos profissionais Secretários em todo o País, e seus Sindicatos filiados, em reunião de diretoria, realizada em 10.3.2001, em Brasília-DF, tendo em vista a forma ilegal e preconceituosa como a matéria veiculada no Jornal "O Povo", edição de domingo, 7.1.2001, caderno "Vida & Arte", sob o título "A mulher-secretária" foi redigida, deliberou aprovar Nota de Repúdio protestando veementemente contra a arbitrariedade por esse Órgão de divulgação. Os profissionais Secretários, cujas atividades estão reconhecidas e regulamentadas pelas Leis nos. 7.377/85 e 9261/96, através de suas Entidades Representativas, às quais cabem a sua legal defesa, coordenação e representação, entendem despropositados, descabidos e inaceitáveis os termos utilizados na elaboração da mencionada matéria, a qual em nada contribui ou acrescenta para a informação à sociedade, senão acende preconceitos e estigmas há muitos já desconstruidos.

Federação Nacional das Secretárias e Secretários-Fenassec"

 

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