Coluna
do Consultor
PT: projeto
de poder pronto e programa de governo em construção - 03/2003
Antônio
Augusto de Queiroz
O Partido
dos Trabalhadores, desde que disputou a primeira eleição presidencial,
deixou claro que possui um projeto de poder. Mas, quando ganhou a
eleição em 2002, transpareceu que não tinha programa de governo, o
qual está sendo formulado com vagar preocupante. Enquanto constrói
seu programa, o governo consome o capital político do presidente Lula.
Resta saber quem da equipe sobreviverá a essa fase e até quando a
população estará disposta a esperar a implementação da agenda aprovada
nas urnas.
O presidente da República, um cidadão íntegro, de grandes méritos
e de passado ética e moralmente inatacável, tem sido um homem de sorte.
De um lado, porque a população tem tido paciência para esperar medidas
que coincidam com a agenda aprovada nas urnas, e, de outro, porque
a oposição ainda não utilizou sua capacidade e poder de obstrução.
A oposição está divida em três grupos: um que age com senso de responsabilidade,
o PSDB; um que espera compartilhar o poder, casos do PMDB e PPB, e
um que está acuado com seus principais líderes sendo investigado,
caso do PFL, com ACM às voltas com o grampo e Bornhausen com as denúncias
do Banestado.
Exercer hegemonicamente o poder, indiscutivelmente, sempre foi a meta
do PT, que vem se preparando para isto desde sua fundação. E, realmente,
é o único partido que reúne condições políticas para liderar processo,
dispondo para tanto de base social, quadros e militantes. Nas circunstâncias
atuais, apenas o PSDB, com sua organização e experiência de governo,
poderá eventualmente ameaçar esse projeto.
No entanto, ao chegar à Presidência da República, o partido vem encontrando
dificuldades para formular e implementar, com a brevidade que a situação
brasileira requer, um programa de governo que corresponda ao discurso
do partido. Lamentavelmente, como não cuidou de fazê-lo com a antecedência
necessária, está pagando o preço de sua elaboração numa conjuntura
desfavorável e com a participação de tecnocratas de carreira (cujas
cabeças estão pensando ainda como o governo anterior), tendo que fazer
concessões já na concepção das políticas públicas.
A metodologia adotada para a elaboração das políticas públicas, com
consultas e participação da sociedade, tem a vantagem de maior legitimação,
mas o conveniente da demora. Enquanto não chegam as propostas de políticas
públicas do novo governo, que se espera sejam na arena redistributiva,
continua no imaginário popular o receituário neoliberal, com enfoque
no ajuste fiscal, com corte de direitos e com aumento das taxas de
juros e das metas de superávit primário.
Pode parecer pressa daqueles que cobram um programa diferente do deixado
por FHC, mas é urgente que isto ocorra sob pena de perda acelerada
da legitimidade do governo, com seu envelhecimento precoce. Para o
governo, é melhor um programa com alguma concessão, desde que feito
no auge da popularidade do presidente, do que nenhum programa, porque
isto leva a implementação da política do governo anterior.
O fato é que começa a existir um vácuo entre a posse do presidente
e as duas peças orçamentárias que irão traçar os cenários e pautar
a ação do governo a partir de 2004: a LDO - Lei de Diretrizes Orçamentárias
e o PPA - Plano Plurianual, a serem enviados ao Congresso respectivamente
até 16 de abril e 30 de agosto e votados conclusivamente até 31 de
junho e 15 de dezembro. Preencher essa lacuna, portanto, não é apenas
necessário, mas também urgente. E esse é um papel que só o governo
pode cumprir, porque possui a prerrogativa de formular políticas públicas
e, privativamente, de remanejar recursos orçamentários para sua implementação.
Em um processo dessa natureza, que existe um projeto político mas
falta um programa de governo para imediata implementação, a tendência
natural é de prestígio e consolidação do grupo responsável pela condução
política e o desgaste dos auxiliares encarregados da elaboração do
programa, sobre os quais recaem todas as críticas ao governo. Estão
no projeto de poder, além do próprio Lula, os ministros José Dirceu,
Luiz Gushiken, Antônio Palocci, Jacques Wagner e Luiz Dulci. É nesse
contexto que deve ser analisada a durabilidade do ministério Lula.