Trabalho
e Violência: a degradação das condições de trabalho do educador(a)
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3/2003
A
violência nas escolas públicas brasileiras tem preocupado a sociedade
e ao governo. Isso transparece na produção científica que procura
identificar as causas do fenômeno e nos discursos e iniciativas oficiais
dirigidas a enfrentá-lo. Uma parte importante dos estudos abordam
a questão social, as formas de organização adotadas pelos jovens,
especialmente os mais pobres, seus valores, a relação com a instituição
escolar e com as organizações do narcotráfico, a relação da escola
com a comunidade, entre outros aspectos, na tentativa de compreender
o fenômeno da violência dirigido contra a escola e os professores(as)
e a que existe entre os próprios alunos. Mas, na literatura sobre
escola e violência tem se identificado uma importante lacuna. Faltam
estudos que analisem a violência nesses estabelecimentos como um fator
que vem contribuindo para a degradação das condições de trabalho dos
educadores(as), ameaçando sua integridade psíquica e física.
O que caracteriza o trabalho do educador(a)? Codo & Vasquez -
Menezes (1999) compreendem que entre um conjunto de fatores que são
necessários para que o processo de ensino - aprendizagem ocorra, existe
um que é o grande catalisador, trata-se da afetividade. Segundo os
autores, através de um contrato tácito entre professores decididos
a ensinar e alunos decididos a aprender, forma-se uma corrente de
elos de afetividade que propicia os momentos de troca entre ambos.
Motivação, cooperação, boa vontade, cumprimento das obrigações deixam
de ser tarefas árduas para alunos(as). Interesse, criatividade e disposição
para tirar dúvidas estimulam o docente. A conquista do aluno pelo
professor envolve um grande investimento de energia afetiva. O professor(a)
precisa que os alunos estejam de seu lado para que o processo de ensino
- aprendizado aconteça. Se os alunos não se envolvem, se o professor
não se envolve, a aprendizagem não terá chance de ser significativa.
Mas o estabelecimento desse vínculo pode sofrer as mais variadas interdições
na realidade do trabalho escolar. Condições de trabalho inadequadas,
tais como infra-estrutura precária, gestão escolar autoritária e episódios
recorrentes de violência podem interferir de forma negativa no relacionamento
entre os professores(as) e os alunos(as). Se o professor (a) não conseguir
administrar de forma adequada as interdições da realidade do trabalho
escolar, isto é, se ele efetivamente não consegue estabelecer o vínculo
afetivo com os alunos de forma a assegurar o êxito de sua atividade
de trabalho, o sofrimento psíquico poderá vir a tona sob a forma da
síndrome do burnout.
Nos últimos anos, a violência tem formado parte da realidade do trabalho
na escola. Observemos primeiro alguns dados que corroboram essa afirmação
e logo discutamos como os professores tem experimentado esse lamentável
fenômeno que traduz um embrutecimento nas relações sociais.
Os acontecimentos mais freqüentes que têm se verificado nas escolas
da rede pública brasileira são o roubo e/ou vandalismo, seguidos de
agressões entre alunos e, por último, as dirigidas a professores.
Em todas as regiões do Brasil há estados caracterizados por um alto
índice de vulnerabilidade das escolas aos episódios de roubo e/ou
vandalismo (mais de 60% das escolas). Na Região Norte, destacam-se
as escolas dos Estados de Pará (68.5%), Amapá (55,3%) e Acre (71.4%),
na Nordeste as dos Estados da Bahia (63.0%), de Sergipe (68.8%) e
Pernambuco (73.9%), na Região Centro-Oeste as dos Estados de Mato
Grosso, (63.4%) e na Sudeste as do Estado de Espírito Santo. As escolas
de maior tamanho são as mais vulneráveis aos episódios que atingem
o patrimônio dos estabelecimentos, em virtude dos maiores recursos
que possuem. Também, exceto na Região Nordeste, as escolas localizadas
nas capitais dos estados se encontram mais expostas ao roubo e/ou
vandalismo (Soria Batista & Dario El Moor, 1999).
Na Região Norte, em agressões a alunos, destacam-se as escolas do
Estado de Roraima (46.3%), na Região Nordeste, as de Rio Grande do
Norte (35.4%), no Centro-Oeste as escolas do DF (58.6%), na Região
Sudeste, destacam-se as escolas de São Paulo (39.4%), na região Sul,
as de Santa Catarina (48.4%). (Soria Batista & Dario El Moor,
1999).
Com relação às agressões a professores, na Região Norte, destacam-se
as escolas de Tocantins (26.7%), no Nordeste, as escolas de Pernambuco
(16.8%), na Centro-Oeste, as escolas de Mato Grosso (33.6%), no Sudeste,
as escolas de Espirito Santo (19.2%), no Sul, as escolas de Paraná
(13.5%). (Soria Batista & Dario El Moor, 1999).
Foram pois identificadas as formas de violência mais freqüentes de
que são alvo os estabelecimentos escolares. Não restam duvidas de
que a violência nas escolas conquistou lugar cativo ao se discutirem
as condições de trabalho dos educadores e a qualidade do processo
educacional. Trata-se agora de retomar o tema desde a perspectiva
do sofrimento dos trabalhadores e trabalhadoras, particularmente da
relação da violência com o burnout.
Há efetivamente relação entre a incidência da violência nos estabelecimentos
escolares e a desistência psicológica que o burnout traduz. Segundo
Codo & Vasquez - Menezes (1999), burnout significa algo como perder
o fogo, a energia, queimar (para fora) completamente (numa tradução
mais direta). O trabalhador perde o sentido de sua relação com o trabalho,
o que se traduz em ausência de interesse. Foi na década do 70 que
foram construídos modelos teóricos e instrumentos capazes de registrar
o sentimento crônico de desânimo, de apatia, de despersonalização
dos trabalhadores encarregados de cuidar (caregivers).
Em uma amostra nacional de quase 39.000 trabalhadores em educação
o Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB, identificou 31,9%
dos trabalhadores apresentando baixo envolvimento emocional com as
tarefas, 25,1% apresentando exaustão emocional e 10.7% com despersonalizaçao.
Se perguntamos pela incidência em nível preocupante de pelo menos
uma das três subescalas que compõem o burnout (baixo envolvimento
emocional, exaustão emocional, e despersonalização), estaremos falando
de 48.4% da categoria, a quase metade de toda a população estudada
(Codo & Vasquez - Menezes, 1999).
A pesquisa mostrou também que os tipos de violência como os episódios
de roubo e/ou vandalismo, as agressões a professores e entre alunos,
estão correlacionadas de forma positiva com a presença do burnout
nos educadores.
Encontrou-se correlação entre burnout e os episódios de roubo e/ou
vandalismo nos estabelecimentos escolares, especificamente com o fator
exastão emocional. A lógica que leva à exaustão emocional é o conflito.
O conflito comparece nas relações com os alunos que o professor precisa
construir para realizar o seu trabalho e as relações que a violência
o obriga a construir. O contexto exige que cada qual cuide do outro.
O professor torna-se emocionalmente exausto.
Encontrou-se também correlação entre agressores a professores e o
fator despersonalização. Viu-se que a tarefa de ensinar exige o comprometimento
emocional e afetivo do professor. Na situação em que as agressões
a professores tornam-se freqüentes, a afetividade necessária a atividade
de trabalho é dificultada. O professor acaba atuando no limite exato
da obrigação. Os alunos tornam-se um número, são coisificados.
Finalmente, os agressores entre os próprios alunos nas escolas levam
a que os professores manifestem um baixo envolvimento emocional com
seu trabalho. Resta assinalar que a relação entre violência e burnout
só é possível num contexto de rotinizaçao dos atos de violência.
A perda de controle sobre o trabalho e o desinvestimento afetivo no
marco dos episódios de violência constituem as duas faces da mesma
moeda, isto é, a alienação. A alienação como perda de controle sobre
o trabalho e como desinvestimento afetivo leva os professores ao sofrimento
psíquico, que se manifesta paradoxalmente, como uma desistência perante
os desafios cada vez mais agudos do cotidiano. Essa desistência constitui
uma espécie de defesa em face de um trabalho que exige afeto e controle,
mas que leva a um desinvestimento afetivo e foge do controle, no marco
da rotinizaçao da violência na escola. A violência pois é mais um
fator que contribui para a desgradaçao das condições de trabalho dos
professores(as) brasileiros, afetando a saúde do educador. Há pois
importantes riscos no trabalho de educar.
Analía Soria Batista é socióloga, doutora em Sociologia pela Universidade
de Brasília (UnB), professora do Instituto de Educação Superior de
Brasília (IESB) e pesquisadora do Laboratório de Psicologia do Trabalho
da Universidade de Brasília.
Fonte:
www.diap.org.br