Construindo
a cidadania - 03/2003
A igualdade de direitos entre mulheres e homens foi inventada nas
ruas, pelos movimentos de mulheres, e ganhou concretude a partir de
muitas disputas política enfrentadas para criar, afirmar e promover
a cidadania de uma metade da humanidade.
Princípios basilares da democracia como a igualdade, a justiça social
e o respeito à diversidade foram re-significados pelos movimentos
feministas e de mulheres. Neste março de 2003, a profundidade das
transformações culturais e políticas realizadas a partir desses movimentos
se expressa na fala do presidente da República, em sua primeira mensagem
ao Congresso Nacional: ''Nosso compromisso com todas as mulheres brasileiras,
em sua
diversidade, é afirmado no aprofundamento da democracia, no combate
aos preconceitos e ao racismo, na ação firme para enfrentar a discriminação
e a exclusão. Se a pobreza tem cara feminina, a luta contra a pobreza
também assim será''.
Afirmou ainda que o entendimento do governo federal é de elaborar
um planejamento de gênero com vista à promoção da igualdade, que é
necessário sensibilizar e articular esforços na sociedade e no governo
para que se tenha não somente políticas específicas para as mulheres.
Há de eliminar a idéia de que políticas para as mulheres e políticas
para a igualdade de gênero são a mesma coisa.
No trajeto que vai da Esplanada à Praça dos Três Poderes, os avanços
em termos de ocupação de espaços políticos pelas mulheres são inegáveis:
incluem uma ministra do Supremo Tribunal Federal, 44 deputadas federais
e dez senadoras, quatro ministras de Estado, entre elas a secretária
Especial de Políticas para a Mulher, Emília Fernandes.
Se esses números são os melhores que já alcançamos na história brasileira,
há que se reconhecer a enorme distância que nos falta percorrer para
alcançar a igualdade.
As desigualdades estão por toda a parte. Dados do próprio IBGE revelam
que, enquanto a renda média das mulheres negras é de R$ 211,08, a
dos homens brancos fica na marca dos R$ 698,07; que a taxa de desemprego
aberto por sexo e cor está em 14,8% para as mulheres negras e em 7,3%
para os homens brancos.
Enfrentando essa situação, o presidente Lula decidiu colocar no Palácio
do Planalto e investir do poder político que daí emana as pastas que
vão encarar a desigualdade em nosso país: o Ministério Extraordinário
de Segurança Alimentar e Combate à Fome, a Secretaria Especial de
Políticas para a Mulher e a futura Secretaria para a Igualdade Racial
- batalha anunciada e declarada já no seu primeiro discurso como presidente
eleito, em
28 de outubro.
Ultrapassar os limites do que já foi conquistado é uma exigência do
momento para avançar na materialidade dos direitos. Definir e adotar
políticas públicas capazes de superar a desigualdade de gênero e eliminar
todo o tipo de discriminação é tarefa inadiável. O desafio é enorme,
afinal nosso país ocupa um lugar de destaque no pódio da desigualdade
global: 40% dos analfabetos adultos são mulheres, a cada duas horas
uma brasileira morre por motivos relacionados à gravidez e a cada
15 segundos uma mulher sofre algum tipo de violência neste país -
física, psicológica ou sexual.
A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres é o espaço institucional
em que governo e sociedade vão fazer com que as políticas do governo
Lula tenham a cara da superação das necessidades femininas. Com status
de ministério e vinculado à Presidência da República, essa secretaria
foi um dos primeiros atos do governo Lula e expressa o reconhecimento
da legitimidade das reivindicações das mulheres e o grau de compromisso
do
presidente com a luta delas pela cidadania.
Estamos construindo coletivamente instrumentos eficazes no combate
à violência sexual e doméstica, ao analfabetismo, à gravidez na adolescência
e de inserção positiva das mulheres no mundo do trabalho. Pretendemos
criar políticas que envolvam todas as áreas do governo na elaboração
e execução de programas e ações que vise ao atendimento integral da
mulher.
Estou neste espaço de governo para contribuir com a construção da
cidadania plena das mulheres. Do lugar de governo, queremos dialogar,
consolidar espaços para o exercício da democracia participativa e
ampliar os canais de acesso ao poder à diversidade de movimentos e
organizações feministas e de mulheres. Afinal, às voltas com as comemorações
do Dia Internacional da Mulher, há que destacar: é na relação com
esses movimentos que encontramos a inspiração e a força de quem tudo
sabe sobre como enfrentar grandes desafios.
Maria Laura Sales Pinheiro, ex-deputada federal, é secretária adjunta
da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
Fonte: www.diap.org.br