Pacto
nacional e contrato social
Edésio
Passos, 20/11/2002
Entre
as diretrizes políticas principais que norteiam a proposta
de governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva,
destaca-se a idéia de pacto nacional, contrato social e/ou
negociação nacional. Na sua "Carta ao Povo Brasileiro",
em 22 de junho de 2002, o então candidato Lula faz o chamamento
a todos: "Será necessária uma lúcida e criteriosa
transição entre o que temos hoje e aquilo que a sociedade
reivindica. O que se desfez ou se deixou de fazer em oito anos não
será compensado em oito dias. O novo modelo não poderá
ser produto de decisões unilaterais do governo, tal como ocorre
hoje, nem será implementado por decreto, de modo voluntarista.
Será fruto de uma ampla negociação nacional,
que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país,
a um novo contrato social, capaz de assegurar o crescimento com estabilidade".
Já no seu primeiro pronunciamento à Nação,
como presidente eleito, no dia 28 de outubro, Lula reafirma seu pensamento:
"Continuaremos a ter atuação decidida no sentido
de unir as diversas forças políticas e sociais para
construir uma nação que beneficie o conjunto do povo.
Vamos promover um Pacto Nacional pelo Brasil, formalizar o Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social e escolher os melhores
quadros do Brasil para fazer parte de um governo amplo, que permita
iniciar o resgate das dívidas sociais seculares. Isso não
se fará sem a ativa participação de todas as
forças vivas do Brasil, trabalhadores e empresários,
homens e mulheres de bem".
Duas reuniões foram realizadas para iniciar os debates sobre
a constituição do Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social, organismo ainda sem definição e estrutura,
mas que, em princípio, será o espaço de discussão
sobre medidas relacionadas com o pacto nacional. Existe por partes
dos interlocutores convidados, em especial dos setores empresariais
e sindicalistas, a aceitação do diálogo, mas
não há, ainda, uma proposta concreta dos temas a serem
abordados e que se constituirão da base de entendimento entre
as partes convocadas e o governo federal, a não ser a questão
do combate a fome. Tratando-se de um momento preliminar, esta será
um das questões a serem equacionadas.
Historicamente, a mais recente tentativa de pacto social foi a proposta
do ex-presidente José Sarney, em dezembro de 1986, quando afirmava:
"Todo o esforço que o Estado faz, a partir da Nova República,
é para restaurar a convivência nacional. Antes, havia
um confronto entre Estado e sociedade.Hoje, vivemos numa sociedade
solidária, onde todos estão opinando em busca de rumos"(Folha
de S.Paulo, 20.12.86). Pretendia-se um pacto de curta duração,
de três a seis meses, basicamente sobre as questões econômicas
e foram convidadas as representações dos trabalhadores
e dos empregadores. A proposta não obteve êxito, especialmente
pelas diferenças de ponto de vista sobre as condições
básicas de um acordo sobre reajuste de salários e não
pagamento da divida externa. Naquela oportunidade, as condições
eram mais difíceis que as atuais, pelo fato de que a sociedade
emergia da ditadura militar e ainda não houvera tempo para
o exercício pleno das liberdades democráticas.
Pode-se considerar que o pacto nacional, com contrato social, foi
finalmente alcançado com a promulgação da Constituição
de 05 de outubro de 1988. Ao definir juridicamente a constituição
da "nova" sociedade, isto é, a sociedade que emergiu
de 25 anos de ditadura militar, a Carta de 1988 estabeleceu, em todos
os campos, os parâmetros da convivência nacional e os
direitos e deveres sociais, recompondo e finalizando a primeira etapa
do processo iniciado com a lei da anistia política de 1979
e abrindo caminho que possibilitasse um novo acerto entre as classes
sociais.
Esse acerto foi gradativamente se tornando cada vez mais difícil,
diante do avanço do neoliberalismo, gestando uma sociedade
em que as diferenças econômicas, sociais e culturais
foram o predominante na década de noventa. Por isso, ao se
propor um pacto social, ou nacional, primeiro há que se verificar
em que sociedade vivemos e que, diante dessas diferenças, que
pacto será possível "que permita iniciar o resgate
das dívidas sociais seculares", como afirma o presidente
eleito Lula. Tarefa complexa a que são chamados os homens de
boa vontade em um momento excepcional da vida brasileira. Desafio
colocado às nossas principais lideranças que terão
a grande oportunidade de demonstrar que a experiência acumulada
neste recente período democrático e as lições
colhidas do processo eleitoral serão aplicadas em benefício
do conjunto de nosso povo.
A experiência histórica de pactos, na Europa e na América
Latina, permite avançar para alguns parâmetros que poderão
ajudar nessa caminhada. O primeiro, e mais significativo, é
o de que nenhum grupo, segmento ou representação social
poderá estar fora da conversação e dos encaminhamentos
concretos. O segundo, de grande valia, a capacidade dos mediadores,
lastreados em conhecimentos teóricos e de vida para bem manejar
os procedimentos. O terceiro, de igual importância, saber indicar
as metas factíveis e o período em que as mesmas deverão
ser alcançadas. Por certo, a estes elementos outros serão
somados, colhidos das lições já apreendidas por
outras sociedades nas suas tentativas de encontrar pontos de identificação
sobre os quais foram erguidas as bases de um entendimento duradouro.
Missão difícil, mas necessária.
Edésio Passos é advogado em Curitiba,PR, ex-deputado
federal (PT/PR)e membro do Corpo Técnico do DIAP. E-mail:edesiopassos@terra.com.br
Fonte:
Análise Política do Diap-Departamento Interestadual
de Assessoria Parlamentar.