A globalização e o sindicalismo
Água não serve só
para beber e globalização não quer dizer que todos os trabalhadores devam pertencer
apenas a um sindicato e, muito menos, que um único sindicato tenha capacidade de
representar toda a diversidade das profissões brasileiras e lutar pelos seus interesses
específicos.
Uma coisa é
defender a unidade na luta, de sindicato que são diferentes entre sí, para enfrentar o
tripé: neoliberalismo, globalização e pensamento único. Outra, é utilizar o mesmo
argumento da unidade e da maior força para passar por cima da existência de entidades
que representam legitimamente trabalhadores de interesses diferentes.
Diferentes porque
anteriormente não se encaixavam em lugar algum, estavam dispersos e levaram décadas para
se organizar, mesmo em condições muito difíceis e desvantajosas. No entanto hoje aí
estão, firmes, dando a sua contribuição para o fortalecimento do movimento sindical e
da democracia em nosso País. São os sindicatos das Categorias Diferenciadas.
Concretamente,
estamos falando da cortina de fumaça, passageira, chamada sindicatos majoritários
(força) X categorias diferenciadas (fragilidade), mais um dos desdobramentos da ofensiva
neoliberal, contra o movimento sindical brasileiro e que traz como efeito imediato: a
nossa divisão e enfraquecimento. Como se não fossem poucas as outras divisões e
enfraquecimentos já provocados.
Por que exatamente
agora levantam a tese de que os sindicatos majoritários é que devem representar os
interesses das categorias diferenciadas?
Categorias
profissionais que foram esquecidas durante décadas e décadas. Tão esquecidas que
tiveram que se organizar em seus próprios sindicatos, elaborar a regulamentação
específica de cada profissão, seus respectivos códigos de ética, pautas de
reivindicação, seu próprio modelo de sindicalismo e negociar em nome dos interesses e
peculiaridades próprias dessas profissões, com o setor patronal, para ver seus direitos
respeitados.
Esse é o nosso caso
das profissionais secretárias.
Não é preciso
muito esforço para demonstrar que nossa profissão é diferente de outras que exercem a
sua atividade e convivem dentro de uma empresa. Há secretárias em praticamente todas as
empresas e em todos os ramos de atividade, público e privado. Somos muitas (cerca de
800.000 em todo o estado) e somos poucas (em cada empresa). Somos portanto uma categoria
forte, com pequena presença dentro do universo de cada empresa.
Diretamente ligadas
aos centros de decisão das empresas, as secretárias são profissionais chave em qualquer
estrutura empresarial moderna. Nossa profissão engloba uma multiplicidade de tarefas,
tanto repetitivas, como interpessoais e exige pessoas capazes de identificar e resolver
problemas complexos, além de lidar com informações sigilosas da empresa, das chefias e
clientes. Para isso é exigido pela regulamentação profissional curso específico de
nível Médio e Superior.
Um levantamento
recente divulgado nos Estados Unidos da América revela a lista das 30 principais
profissões americanas deste século, registradas pelo Departamento de Estatística
daquele País. As secretárias estão em terceiro lugar. Isto ocorre, entre outras coisas,
porque nossa profissão não é só precursora do computador, da informática nos
escritórios, mas da globalização também.
Temos portanto uma
realidade profissional completamente distinta das demais profissões, embora tenhamos
inúmeros interesses comuns a todos os trabalhadores brasileiros. As formas de
participação sindical da profissional secretária também são diferentes, pois temos
muita dificuldade em deixar o posto de trabalho para participar de qualquer atividade,
até mesmo do convívio com as nossas famílias.
O Sindicato das
Secretárias do Estado de São Paulo SINSESP, foi justamente criado em 1987 (
juntamente com outros sindicatos estaduais e secretárias em todo o Brasil), para
desenvolver um tipo de organização sindical capaz de aglutinar e atender as necessidades
da nossa categoria. Organizadas, sim, temos condições de participar, da nossa maneira,
ativamente, de todas as grandes batalhas do movimento sindical brasileiro.
Cada profissão tem
suas características, suas próprias formas de trabalho e de luta e sua própria maneira
de fazer sindicalismo. Entender e respeitar essas diferenças é produtivo para o
trabalhador, para os sindicatos e para as empresas também.
Assim ocorre com os
70.000 profissionais de vendas, os 140.000 engenheiros, os 700.000 metalúrgicos e as
800.000 secretárias no Estado de São Paulo. Assim também acontece com os advogados,
telefonistas, psicólogos, jornalistas, trabalhadores em asseio e conservação,
desenhistas e tantos outros.
Todos queremos
unidade na luta pela retomada do crescimento econômico, melhores salários, melhores
condições de vida e trabalho, redução da jornada (que no nosso caso é comum passar
das 8 horas diárias) e fortalecimento dos sindicatos. Aliada à defesa intransigente dos
interesses específicos das nossas respectivas categorias. Respeitado é claro, as
diferentes realidades que somente quem pertence à profissão pode conhecer, entender,
discutir e buscar solução.
Temos orgulho da
nossa profissão! Representamos e queremos representar cada vez mais e melhor nossa
categoria. Disso não abriremos mão. Para isso estudamos e trabalhamos muito, continuamos
estudando, trabalhando e nos preparando.
Dez/97